domingo, 18 de outubro de 2009

Reflexão

À cada etapa da construção do BLOG, distanciava minha intimidade; perguntas surgiram: Cadê meu passado? Cadê meu Papel e caneta? Cadê meu momento?
Bem sei que um homem não pode viver de recordações, lembranças, sonhos, mas da realidade vigente, cruel e sádica.
Tenho as cartas, os poemas e frases de um momento mágico, único – e quem sabe, até lúdico –, percebo então o “eu” como um menino correndo atrás sabe-se lá o que.
Minha obra prima é uma carta de amor.
Há!!!! Uma carta de amor é um papel que liga duas solidões. A mulher está só. Se há outras pessoas, ela as deixou. Bem pode ser que as coisas que estão nela escritas não sejam nenhum segredo, que possam ser contadas a todos. Mas, para que a carta seja de amor, ela tem de ser lida em solidão. Como se o amante estivesse dizendo: “Escrevo para que você fique sozinha...” É este ato de leitura solitária que estabelece a cumplicidade. Pois foi da solidão que a carta nasceu. A carta de amor é o objeto que o amante faz para tornar suportável a sua saudade.
Leio e releio as recomendações de ser blogueiro; e logo penso no poema de Álvaro de Campos. Oscilo. Não sei se devo acreditar ou duvidar. Pois foi ele mesmo quem disse – ou melhor, o seu outro, o Fernando Pessoa – que ele era um “FINGIDOR”.
Vida exposta, aberta, dilacerada, esse é meu significado do Blog.
Confesso a tentação pelos recursos de mídia; até porque são vários os seguidores dessas tendências virtuais. E são nesses seguidores que me remetem de vez em quando o diabo; que me aparece e temos longas conversas. Em nada se parece com o que dizem dele: rabo, chifres, patas de bode e cheiro de enxofre. Cavalheiro de voz mansa e racional, bem vestido, apreciador de bons vinhos, me surpreende sempre pela lógica dos seus argumentos. Nada de futilidades. Só fala sobre o essencial, estilo que aprendeu com Deus, nos anos em que foi seu discípulo. Percebi que era ele quando notei que trazia na sua mão direita o martelo e, na esquerda, a bigorna. Pois esta é a sua missão: martelar as certezas, ferro contra ferro, para ver se sobrevivem ao teste.
Já se preparava para dar a primeira martelada quando o interrompi:
– Que é isto que você vai bater? Acho que vai se partir em mil pedaços...
A coisa que estava sobre a bigorna me parecia feita de louça, um bibelô delicado e frágil, e lamentei que o diabo fosse esmigalhá-la.
– Não tenho outra alternativa – ele me respondeu.
– É parte de uma aposta que fiz com Deus. Os homens devem ser testados cotidianamente, para adquiri pulso ou não.
Eu me persignei três vezes e compreendi que o inferno está mais perto do que eu pensava.

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